|| Mudanças ||
Caminhando pela areia úmida da praia encontrava-se uma garota de pele clara, cabelos castanhos passando dos ombros e ar de sonhadora. Era uma garota normal, daquelas tantas que já estão na transição da adolescência para a fase adulta, com muitos sonhos e sentimentos à flor da pele. A água fria da manhã molhava seus pés e o vento açoitava-lhe a face em um toque até que carinhoso. Ela gostava daquela sensação, sentia-se livre de seus problemas juvenis e seus medos. Sentia-se livre perto da água.
Como acontecera em todas as outras manhãs, de repente, um vento violento soprou e o mar se agitou. Os pingos de chuva que cariam do céu logo ensoparam sua roupa, indicando que o passeio tinha chegado ao fim. Ela correu em busca de abrigo, talvez houvesse algum lugar onde ela pudesse esperar a chuva passar, talvez... Então um forte trovão fez seu coração acelerar. Relâmpagos cortavam o céu coberto de nuvens escuras, ela olhou em volta procurando por alguém, mas não havia ninguém pro perto. Havia algo anormal no tempo, algo que a assustava, algo que ela não conseguia identificar. Um segundo raio, um trovão e, no céu, uma gigantesca sombra que lembravam olhos a observava.
Ela correu, seu cabelo longo colava em seu rosto e dificultava sua visão. Ela não parou, continuou correndo, estava assustada com o coração acelerado. A areia molhada da praia dificultava sua carreira, então ela tropeçou e caiu. Outro assustador trovão, então ela acordou.
Seu nome era Anne Jane Heartford.
Transpirava e, lentamente, controlou a respiração que estava acelerada. Dessa vez aquele sonho foi mais real e assustador que das outras vezes. Geralmente o sonho era rápido: mostrava apenas a garota na caminhando tranquilamente na praia. Essa foi a primeira vez o tempo mudou completamente, o que a assustou um bocado.
Respirou fundo, tinha sido apenas um sonho ruim – foi o que ela pensou. Espreguiçou-se ainda sem coragem, queria voltar a dormir, mas sabia que logo seu pai bateria na porta do quarto exigindo uma conversa estilo pai & filha. Esticou o braço até o criado mudo do lado da cama e pegou o iPhone que ganhou do pai no aniversário de dezessete anos duas semanas atrás, nele havia uma mensagem de texto do namorado.
“Bati o carro do velho – referencia ao pai - essa tarde enquanto saia com a galera. Não vou poder ir te ver hoje. Amanhã a gente se fala. Beijos gata, D.”
Daniel era seu namorado nada perfeito. Na verdade, Anne ainda não sabia por que continuava com o garoto. No começo ele parecia ser o namorado que toda garota gostaria de ter: era simpático, prestativo, carinhoso, alegre e todos os adjetivos que ela conseguia pensar para qualificá-lo, mas já tinha um tempo que ele mudou sua relação com ela. Mas ele à amava, isso todos sabiam, o único problema era que sua cabeça avoada parecia ter esquecido da namorada enquanto ele passava muito tempo se divertindo com os amigos.
Sorriu incrédula antes de jogar o aparelho na cama e ir até a janela e fechá-las. Já era noite, provavelmente umas seis horas, logo estaria na hora da janta. Carter Heartford, seu pai, era um repórter que tinha tudo para ser bem sucedido em Los Angeles, mas que andava tentado a mudar de ares no intuito de ganhar mais tempo com sua única filha, Anne.
Carter era um homem de meia idade, porte de atleta, bonito e esforçado. O tipo de homem maduro que muitas mulheres procuram, porém ele ainda não conseguiu superar cem por cento a esposa que falecera há quase um ano. Era o tipo de pai extremamente protetor, sempre presente na vida da garota, querendo nunca deixar nada faltar pra sua filha. Porém, mesmo assim, às vezes algumas faíscas surgiam quando Anne e Carter defendiam suas opiniões.
Foi enquanto observava a movimentação da cidade da janela do apartamento que Anne sentiu um formigamento no pé, algo que ela não tinha percebido antes. Se agachou e retirou a meia – os sapatos estavam jogados no pé da cama – do pé direito revelando, além da pele alva, uma marca de nascença escura que desenhava perto do seu calcanhar uma meia lua. Esfregou os dedos na marca, raramente sentia aquilo, mas não deu tanta atenção.
Arrumou a cama, pegou roupas limpas e confortáveis no guarda-roupa e foi até o banheiro tomar banho. Sentia-se pesada, como se tivesse passado o dia em um árduo trabalho, o que não aconteceu. Na verdade, Anne até tivera um dia tranqüilo, sem muitas coisas na escola já que era uma boa aluna, com muitos sorrisos e música, Anne amava música.
- Anne? Já acordou, filha? O jantar já esta pronto. – disse Carter no corredor na frente do banheiro.
- Vou só tomar um banho, pai. – Anne respondeu entrando em baixo da água quente. Cantarolava baixinho uma música que sempre estava em seu set list, The Only Exception de uma banda de rock Paramore. Ainda estava insatisfeita com o namorado, além disso o estranho pesadelo que tivera ainda pairava em sua mente, e o formigamento em sua marca continuava a incomodá-la. Fora isso, havia aquele grande problema que estava deixando-a sem sono. Aquele que seu pai estava disposto a não ajudá-la, já que para ele, aquele era o melhor a se fazer. Anne sentiu raiva só em pensar no que o pai estava querendo fazer.
Em baixo da ducha encenou várias desculpas e criou motivos para que não precisassem se mudar. Já tentara ter aquela conversa antes com seu pai, mas logo essa conversa rumou para uma discussão e a logo os dois estavam irritados demais para continuar com a conversa.
Trocou de roupa, penteou os cabelos sedosos e brilhantes e foi encontrar o pai na cozinha.
- Finalmente a Bela Adormecida resolveu acordar. – brincou Carter ao vê-la entrar na cozinha.
A mesa estava pronta. Havia arroz, bife acebolado, porções de batatas fritas que pareciam ter sido comprados na volta para casa após o trabalho de Carter e salada. Coisas simples que um solteirão sabia fazer, mesmo que sem perfeição.
- Acho que dormi demais. Fazer nada cansa, sabia? – brincou, indo até onde o pai estava e beijou-lhe o rosto. – Como foi o trabalho?
- Normal. Muitas coisas pra fazer, a mesma correria de sempre. Uma senhora maluca e míope quase bate no meu carro hoje, você deveria ter visto a cara de susto que ela fez quando ficou a centímetros de mim. E a escola?
- Normal, também. Daniel não vem aqui hoje.
Carter não disse nada, apenas pôs o refrigerante sobre a mesa e Anne pegou os dois copos no armário da cozinha. Carter nunca aprovou o namoro entre Anne e Daniel, mas também nunca foi contra. Carter no fundo sabia que aquele namoro não tinha tanto futuro assim, faria apenas parte da adolescência da filha.
Anne era aparentemente uma garota comum com uma vida comum, mas aparentemente ela não sentia isso. Acontece que desde eu Anne recebera a noticia de que teria de se mudar a sua vida tinha perdido o rumo e tudo estava perdido.
Claro que um exagero de uma adolescente, mas para esta adolescente era tão frustrante ter de deixar a vida que tinha para trás...
Quando ambos já estavam sentados e se servindo, Anne resolveu arriscar falar sobre o atual assunto delicado.
- Ainda pretende se mudar? – falou normalmente, como se aquele fosse um dos assuntos corriqueiros da casa.
- Sim, Anne, você sabe... – respondeu Carter, também entrando no “jogo” de Anne.
- Pai, mas e os meus amigos que tenho, além disso, a escola... Não vamos achar uma tão maravilhosa quanto à daqui! – essa era mais uma tentativa em meio às outras milhares.
- Anne, você é nova demais e fará novos amigos e lá terá uma escola que é tão boa quanto a que você esta agora e, além disso, nós já falamos sobre isso.
- Mas...
- Anne, chega, okay? Agora prove esses aipos. – Carter falou indicando os mesmos – Vamos eles são saudáveis! – Deu ele por encerrada a conversa voltando sua atenção a refeição
Anne pareceu decepcionada, era verdade que era mais uma tentativa, poderia ser a milésima, mas ela ainda tinha esperanças, mas a cada negativa do pai menos ela a tinha.
O jantar foi silencioso, exceto claro pela voz do comentarista esportivo que passava o placar das partidas da noite, com o prato quase do mesmo jeito que estava no inicio do jantar Anne ajudou a retirar a mesa, agora que eram apenas seu pai e ela, era mais rápido, as refeições não eram tão planejadas como quando era sua mãe que cozinhava e nem tão gostosa, mas ao menos eles tentavam, pelo menos Carter tentava apesar de seu pouquíssimo sucesso.
Se Anne não estivesse tão chateada quando ficava dentro de casa teria sido mais paciente e compreensiva com seu pai, mas sem essa ajudinha da filha Carter tinha além de lidar com o emprego, toda a responsabilidade de cuidar da casa e claro de lidar com uma adolescente...
